segunda-feira, 3 de maio de 2010

Hoje tem quadrinhos no Roda Viva (TV Cultura)


Wood&Stock, dois personagens do quadrinho nacional que fazem sucesso até hoje, e que ganharam seu próprio filme.



Copio abaixo a newsletter que recebi do programa Roda Viva. Promete ser bem interessante!!!

Gabriel Bá e Fábio Moon
Quadrinistas

A falta de visibilidade e o pouco interesse do público brasileiro por obras próprias sempre dificultaram o surgimento de novos talentos no mundo dos quadrinhos. Mas o mercado brasileiro de HQ passa por uma nova fase. Artistas estão ganhando cada vez mais espaço em editoras nacionais e estrangeiras para publicar trabalhos originais.

Precursores de uma nova geração que tenta publicar material original no país e conquistar oportunidades de trabalho no seletíssimo universo dos HQs americanos e europeus, Gabriel Bá e Fábio Moon são adeptos da filosofia de que o quadrinista não pode depender de ter onde publicar para produzir.

O trabalho da dupla inclui uma adaptação para os quadrinhos da obra O Alienista, de Machado de Assis, vencedor do prêmio Jabuti, e 5 (Five), que conquistou o Eisner, o principal prêmio dos quadrinhos no mundo.

A dupla quebrou barreiras, derrubou preconceitos e conquistou o concorrido e cobiçado mercado internacional. O sucesso deles abre as portas e encoraja novos talentos no mundo dos quadrinhos.

Participam como convidados entrevistadores: André Forastieri, jornalista; Érico Borgo, editor do site Omelete; Paulo Ramos, jornalista responsável pelo Blog dos Quadrinhos do portal UOL e professor de letras da Universidade Federal de São Paulo e Danilo Gentili, humorista e repórter do programa CQC da Band.
Colaboradores: Verônica Mambrini, colaboradora da Revista IstoÉ (http://twitter.com/vmambrini); Bárbara Vidal Aguiar, estudante de jornalismo (http://twitter.com/barbaravidal),
Paulo Henrique A. da Costa, programador da Polvora Comunicação (http://twitter.com/graveheart) e Jakelyne Lechinewski, fotógrafa e produtora de moda (http://www.flickr.com/jaklechi).

Apresentação: Heródoto Barbeiro

Roda Viva é apresentado às segundas a partir das 22h00.
Você pode assistir on-line acessando o site no horário do programa.
http://www2.tvcultura.com.br/rodaviva


Gostei de saber que o Érico Borgo vai participar: sempre tive curiosidade de conhecer o criador do site Omelete!
E para quem gosta do humor de Danilo Gentilli, ele também estará lá...

Abraço da
Anita

domingo, 25 de abril de 2010

Reflexões

Imagem: Escultura "O Pensador", de Rodin

Hoje foi um dia em que tive a oportunidade de ver o passado passear diante dos meus olhos. E pude agradecer a Deus porque, enfim, é passado.

Não, não que eu tenha apenas um passado ruim. Todos nós temos boas e más lembranças. Mas vi, como em um filme, muitos erros que cometi, muitos sonhos não realizados, por bem ou por mal, e muitas lições que a vida me ensinou. E isto, também, me fez refletir bastante.

Quando estamos em uma situação melhor, costumamos esquecer as mazelas e o que elas nos ensinaram. As dificuldades não existem apenas para serem difíceis: são verdadeiras oportunidades de crescimento pessoal.

No fim do ano 2000, eu estava em um beco sem saída. Quer dizer, não posso dizer SEM SAÍDA pois para Deus nada é impossível, e se ELE quisesse me mostrar que é possível criar um caminho do NADA certamente O teria feito. Já havia passado nas melhores faculdades; poderia ter um futuro promissor, mas vivia num círculo vicioso atrás do próprio rabo, sem conseguir concluir nenhuma tarefa que começasse. Tudo por não agüentar mais o stress de viver uma montanha russa emocional. E Deus, tenho certeza disso, tinha tudo sob controle.

Então um dia a corda arrebentou. Primeiro foram crises de síndrome do pânico, que primeiro foram diagnosticadas como uma falha da válvula mitral. A verdade veio à tona quando comecei a alternar períodos longos de sono com outros sem dormir. Cheguei arrasada, moída ao hospital, pedindo que alguém parasse com aquilo, pois eu não conseguia mais parar. Havia passado uma semana inteira trabalhando, sem dormir, logo após um período de 4 dias de sono contínuo.


Começara minha longa jornada de tratamento psiquiátrico. Descobri que existiam N doenças ligadas ao stress, e a maioria delas começava com síndrome do pânico. Também descobri, de forma muito dolorosa, que as opiniões médicas variam muito, bem como os tratamentos. Mudei muitas vezes de médico, e quando não me agüentava mais, buscava alívio em internações. Tomei muitos remédios diferentes, alguns com tristes efeitos colaterais, como enorme ganho de peso, sem grandes melhoras. Me internei 4 vezes no total. Tinha esperanças de que, com algum médico me acompanhando 24h em um hospital, tivesse melhor êxito no diagnóstico e no tratamento. E isso aconteceu, felizmente, na quarta vez, há 3 anos atrás.

3 anos atrás. Foram quase 8 anos buscando, de consultório em consultório, de hospital em hospital, uma resposta e um alívio que me ajudassem a recuperar a vida perdida. Não conseguia estudar. Não conseguia fazer nada por completo. Agradeço todos os dias, porque sei que não mereço, sendo de carne mortal e pecadora como sou, a alegria de ter o médico certo e o melhor tratamento para recuperar a minha vida. E, quase na mesma época, também encontrei uma boa psicóloga, verdadeiro presente de Deus na minha vida.
Aprendi muito nas internações. Aprendi a ver o ser humano sob uma nova ótica. Eu fugia dos padrões de um paciente comum nestes lugares. Primeiro, por ser eu mesma a buscar a internação. Segundo, porque eu tinha noção de que algo estava errado e queria melhorar. Para minha sorte, isso atraía a atenção da equipe para descobrir o que estava errado comigo, e sempre fui muito bem atendida.

Eu sempre ficava doída de ver tantas pessoas internadas comigo, que estavam distantes da sua realidade. Sim, a maioria estava ali à força, nem poderia ser diferente, estando tão distantes da realidade. Alguns, os parentes não queriam mais, e haviam sido abandonados ali em definitivo. Mas eles realmente não tinham noção, em sua maioria, do que tinham feito de errado para estar ali, ou não achavam que tivessem feito nada demais. Os que sabiam que tinham “aprontado” viviam tristes, pois admitiam não conseguir parar de ter esse comportamento inadequado. O que mais me impressionava era uma ala à parte, com a qual não tínhamos o menor contato, mas da qual sempre ouvíamos as vozes e os gritos. Era de pacientes que, mesmo medicados, apresentavam riscos ao convívio social. Não respondiam a nenhum tipo de tratamento. Era de arrepiar. Agradeço sempre a Deus por termos pessoas neste mundo que dedicam suas vidas a cuidar de pacientes como nós.

Hoje, com o médico certo e o tratamento certo, tenho conseguido grandes resultados. Nem eu me lembrava mais de como era pior. Achava que a minha vida tinha estagnado. Mas, acostumada como estava a ter resultados rapidamente, hoje compreendo que a falsa impressão de estagnação vem da minha impaciência. Eu ainda tenho um longo caminho a percorrer pela frente. Mas é bom olhar para trás e ver que já ganhei uma boa distância.

Os remédios estão fazendo um grande trabalho. O mais duro está por conta da terapia: esta, tem que ser compreendida e trilhada passo a passo. E eu, que tenho mania de pular a teoria e ir direto aos exercícios, estou tendo que aprender a controlar a minha sede de vencer. Afinal, tudo acontecerá no tempo que Deus determinar, não no meu.

Eclesiastes 3
1
Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
2
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
3
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
4
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
5
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
6
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
7
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
8
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.
Fonte: http://www.bibliaonline.com.br - edição Almeida Corrigida e Revisada Fiel

segunda-feira, 22 de março de 2010

Por que gostei do Runescape e seu uso educacional (em todas as idades)




Imagem: um dos desafios da missão "A vassoura encantada": tire 4 linhas do desenho, de  modo que forme apenas 4 triângulos (fácil).

AVISO: ESTE ARTIGO É LONGO - Leia com tempo. Valerá a pena.

Hoje vou falar um pouco de um jogo online chamado Runescape, da Jagex Ltd., empresa inglesa que já lançou diversos sucessos de jogos online em todo o mundo. Muitos já devem ter ouvido falar, seja pelos seus filhos ou alunos, de jogos como War of Warcraft, Gunbound, Lunia, entre outros games desta mesma empresa. Nestes outros jogos não vou dar pitaco, nunca joguei qualquer um deles, mas sei que todos seguem a mesma linha mestra - o RPG (Role-Playing Game).

Então, para as pessoas que nunca jogaram ou viram o que é um RPG (como eu até pouco tempo atrás), muitas vezes por influências negativas (o RPG foi considerado perigoso na década de 90, o que só foi desmentido posteriormente) faço um apêndice para melhor compreensão deste artigo. Uma excelente descrição de como é uma partida de jogo de RPG e como funciona está no Wikipedia (aqui, resumi ao essencial para o entendimento deste artigo). SE VOCÊ JÁ SABE E ENTENDE DE RPG PULE PARA O 7° PARÁGRAFO DESTE ARTIGO.

"O RPG é um jogo pouco convencional quando comparamos aos jogos habituais. Em um teatro, os atores recebem seu guião (ou "script"), o conjunto de suas ações, gestos e falas, com tudo o que suas personagens devem saber e fazer. Você interpreta uma personagem de ficção, seguindo o enredo definido em um roteiro. Num jogo de estratégia, por outro lado, você está seguindo um conjunto de regras onde, para vencer, você precisa vencer desafios impostos por seus adversários - cada partida é única, já que é impossível prever seus movimentos durante o jogo. No RPG, esses dois universos se unem.
Como em um jogo de estratégia, há regras que o definem, e guiam aquilo que o seu personagem pode ou não fazer. A esse conjunto de regras chama-se sistema. Como no teatro, cada personagem tem uma história, e deve ser interpretado assim como fazem os atores. Diferente de um jogo de estratégia, você não luta contra um adversário específico, mas vive aventuras em um mundo imaginário. Diferente do teatro, você não segue um roteiro, mas age pelo seu personagem com liberdade de ação, limitado somente pelo conjunto de regras do sistema em questão.



  Uma partida de RPG: jovens com seus livros e dados, prontos para mais uma aventura.
Fonte da imagem:  http://cronicasartonianas.blogspot.com/2007/10/o-que-e-rpg.html

O segundo tipo de jogador é o narradormestre ou GM (Game Master). Será ele quem criará a história e julgará as ações de todos os personagens do jogo. O narrador normalmente não possui um personagem próprio, mas controla todos os personagens não-jogadores da aventura - que seriam os coadjuvantes da peça de teatro. Enquanto o jogador tem uma atuação assemelhada àquela de um ator de teatro, o narrador seria o diretor e roteirista, aquele que define o cenário, figurantes, ambiente e tudo mais. Por isso mesmo, o narrador é aquele que deve conhecer as regras mais profundamente, e deve ser o mais experiente do grupo, normalmente seguindo um sistema de regras pré-determinado que o ajudará com os eventuais problemas e dúvidas que venham a surgir. Apesar do narrador seguir as regras de um sistema, ele pode quebrá-las, ignorá-las ou mudá-las em prol de uma fluidez no andamento da partida, baseando-se para isso no seu bom senso. Conhecer o máximo possível sobre o sistema facilita esse processo e evita arbitrariedades.
Em registros oficiais, o Role Playing Game ou RPG surgiu no ano de 1974. O primeiro lançamento foi o jogo Dungeons & Dragons(Masmorras e Dragões, em português), criado por Gary Gygax e Dave Arneson. No início, o D&D( abreviatura de Dungeons&Dragons), era um simples complemento para um outro jogo de peças de miniatura chamado Chainmail (cota de malha), mas terminou dando origem a um jogo totalmente diferente e inovador. Este primeiro jogo era extremamente simples comparado aos Jogos de Interpretação da atualidade e tinha uma origem influenciada por jogos de guerra/estratégia."

Bom, e onde entra a educação e o Runescape nisso tudo?

Ainda na década de 90, o sistema GURPS de RPG lançava o primeiro livro paradidático de RPG no Brasil,  "O desafio dos bandeirantes", sobre o folclore brasileiro. Também lançaram outro, baseado no filme nacional "No coração dos deuses" (trazia Antônio Fagundes como ator principal), que poderia ser jogado como aventura-solo. Então, professores de  história e geografia começaram a vislumbrar a possibilidade de fazerem seus alunos "vivenciarem" os fatos passados, para melhor compreensão e fixação dos mesmos. Um mundo de possibilidades educativas estava aberto, pronto para ser explorado com a criatividade de cada um.

Dois livros paradidáticos de RPG.
Imagens retiradas do Google Search (images).

Com a popularização dos computadores e da internet, gráficos mais poderosos acessíveis a todos e toda uma geração de estudantes conectada, surge então as comunidades online de RPG. Primeiro nas faculdades (vi comunidades de GURPS das faculdades da UNESP e de São Carlos na rede), e depois com os novos jogos MMORPG, classificação na qual o Runescape e os demais jogos da Jagex citados se inserem.

Novamente, utilizarei a definição do Wikipedia para esclarecermos este termo no artigo, antes de continuarmos:

"Um jogo de interpretação de personagem online e em massa para múltiplos jogadores (Massively ou Massive Multiplayer Online Role-Playing Game ou Multi massive online Role-Playing Game) ou MMORPG é um jogo de computador e/ou videogame que permite a milhares de jogadores criarem personagens em um mundo virtual dinâmico ao mesmo tempo na Internet. MMORPGs são um subtipo dos Massively Multiplayer Online Game (Jogos Online Massivos para Múltiplos Jogadores)."

Faço parte de alguns grupos de discussão online de educadores que utilizam o RPG como ferramenta de ensino, mas nunca tive a oportunidade de colocar a "mão na massa" antes de Runescape. Estou comprando todos os livros do GURPS, mas não é fácil achá-los. O GURPS  não foi o sistema de RPG mais famoso, por ser considerado "para nerds" e teve suas vendas descontinuadas pela editora Devir, representante de RPGs no Brasil. Mesmo o RPG mais famoso e jogado até os dias de hoje, o Dungeons&Dragons (ou D&D, como é popularmente chamado), não tem todos os seus livros vendidos aqui. Alguns, só são conseguidos em inglês e por encomenda.

Veja AQUI um fórum de RPG&Educação.

Mas voltando ao Runescape... aqui ele entra na história. E novamente a  Wikipedia nos dá a sua definição:

"RuneScape é um MMORPG (Massively Multiplayer Online Role-Playing Game) produzido pela empresa britânica Jagex Ltda. Foi criado oficialmente em 1998, por Andrew Gower. O jogo possui mais de 138.000.000 (Cento e trinta e oito milhões) contas criadas, e foi reconhecido pelo Guinness como o MMORPG gratuito mais famoso do mundo."

Ao entrar no site do Runescape pela primeira vez, você é convidado a ver uma prévia do jogo (o tema é épico, medieval; o tempo dos cavaleiros) e a fazer o seu cadastro, que pode ser gratuito (suficiente para mais de 5.000 horas de jogo entre missões e aventuras) ou pago (para os gulosos, mais de 15.000 horas de jogo). Até aí, nada de mais; após o cadastro, você faz o tutorial.

Página inicial do Runescape em português.
Foi alterada este mês em comemoração à nova habilidade, Dungeon, que pode ser praticada nas masmorras de Kalaboss. Na verdade, Dungeon exige que o personagem tenha desenvolvido suas outras habilidades, pois todas elas, junto com desafios de lógica e estratégia, serão testadas ao mesmo tempo em Kalaboss. Cada partida é única, não tendo como dois jogadores vivenciarem os mesmos desafios ao mesmo tempo separadamente. Pode ser jogado em grupos de 1 a 5 jogadores.
A imagem acima é propriedade da Jagex Ltd.

Enquanto você cria o seu avatar, que pode ser montado como o alter-ego desejado e realmente fará com que você se sinta no jogo, é possível ver algumas das diferenças étnicas: conforme você muda o tom da pele é possível notar algumas diferenças nas feições do rosto; o modo como o tutorial é conduzido, (onde o desafio é livrar-se de um dragão sem ser por combate) tudo te leva a pensar: " E se, ao invés de usar para esta finalidade, eu usasse para ensinar alguma matéria?" E sim, você consegue ver, em tempo real, como seria isso. Lá existe explicações básicas para habilidades como agricultura e caça. Também foi criada toda a história de Runescape, dividida em eras (o jogo começou na 5a era), com religião (deuses), geografia, costumes e idiomas diferentes nos países (qualquer semelhança com o mundo real não é mera coincidência), e mais. A diferença é que, diferente de outros jogos MMORPG, o Runescape já traz dentro dele desafios de raciocínio lógico, histórias conhecidas da literatura mundial, diferentes habilidades para desenvolvimento e EXIGE LEITURA, como todos os jogos de RPG.

Imagem da missão Romeu e Julieta.
A imagem acima é de propriedade da Jagex Ltd.
Uma das missões mais curiosas que já fiz dentro de Runescape, na cidade de Faladore (usuário pago), é para se tornar um cavaleiro templário iniciado. Durante os desafios, seus conhecimentos de física, química, interpretação de leitura e raciocínio lógico são testados. Seu avatar é testado em várias salas. Em uma delas, precisa utilizar qualquer coisa existente na sala para sair dela. Confesso que precisei de ajuda da internet para resolver a charada. Envolvia sulfato cúprico, bico de bundsen, pó de estanho, gesso, entre outras coisas. Em outra sala, um desafio no mínimo curioso: um cavaleiro abençoado não pode ser derrotado por nenhum homem, independente de sua habilidade em combate. A interpretação aqui é literal: apenas uma mulher pode derrotá-lo. Muito criativo também: muitas vezes me pergunto quem assessora a criação das missões. Isto tudo em apenas uma única das 270 missões atualmente disponíveis no jogo.

O seu avatar, ao chegar em Runescape, tem N possibilidades de desenvolvimento, desde virar um cavaleiro brutal ávido por batalhas até um expert em culinária. Atualmente existem 25 habilidades possíveis de serem desenvolvidas em Runescape (veja imagem abaixo). Algumas habilidades, como cortar madeira e pescar, permitem ao jogador extrair recursos que podem ser processados em outros items, consumíveis ou utilizáveis em outras habilidades, como fabricação de flechas e culinária. Os itens podem ser usados em outras habilidades ou vendidos para ganhar dinheiro. Outras habilidades permitem o jogador matar criaturas específicas (habilidade em extermínio), melhoram o nível de pesca, permitem a construção de casas próprias, e melhoram suas habilidades de combate (ataque, defesa, força, magia, combate a distância e evocação), entre outros.


Gráfico das habilidades de um jogador. Imagem modificada para explicação das habilidades.
Fonte: http://runescape.com.br
A imagem acima, mesmo modificada, é propriedade da Jagex Ltd.

Tudo é feito de maneira muito precisa, e quando penso que estes ingleses não irão me surpreender mais, sempre aparece uma novidade: semana passada, foi disponibilizada uma nova missão. Na semana retrasada foram atualizados os gráficos do jogo com a versão Java mais recente. E agora foi introduzida uma nova habilidade: Dungeoneering, ou Dungeon em português, possibilita testar todas as habilidades desenvolvidas no jogo junto com desafios de raciocínio lógico, que pode ser feito individualmente ou em grupo de até cinco pessoas.

Para todas as idades, considero o jogo excelente - embora seja recomendado para maiores de 12 anos, por exigir muita leitura, raciocínio lógico, estratégia e paciência, algumas atividades podem ser desenvolvidas de forma supervisionada. Por exemplo, a missão "Assistente do mestre-cuca" serve para tirar o cozinheiro do castelo do duque de Lumbridge de uma enrascada e aprender a fazer um bolo. E, na época medieval, isso significa que você não irá até o supermercado comprar uma caixinha de mistura pronta de bolo para assar em casa; ao invés disso, vai aprender onde ficam alguns galinheiros no reino, pegar ovos, onde ficam as vacas e ordenhá-las você mesmo, colher os grãos de trigo na plantação e levar ao moinho para moê-los e adquirir a farinha e levar tudo ao cozinheiro. Achei fantástico para pessoas de qualquer idade. Para os pequenos muita coisa pode ser ensinada andando e praticando as habilidades de Runescape, como pesca.


Aprendendo a pescar lula à moda indígena em Karamja (pesca de karambwan).
Fonte: http://www.runescape.com
A imagem acima é propriedade da Jagex Ltd.


Uma coisa importante também é que a Jagex mantém uma equipe que vasculha e bloqueia qualquer tentativa de utilização de "bots" ou "hacks" dentro do jogo: são programas escusos cuja promessa é fazer seu avatar desenvolver habilidades sem intervenção humana. Muitas vezes encontrados na internet, a maioria não passa de fraude. Mas alguns que de fato conseguem aproveitar uma falha de programação do jogo (bug) podem ser denunciados por qualquer jogador, em um botão incorporado à tela denominado "Reportar abuso". Estes jogadores são banidos e colocados em listas negras de fóruns e sites de jogadores mais conhecidos. E claro, a falha é verificada e corrigida.


Com isto, a Jagex procura garantir o que todos nós sabemos na vida real: nada pode ser conquistado sem muito trabalho e esforço. A varinha mágica não passa de um mito. E a "vida fácil" tem um preço que nem todos estão dispostos a pagar.

Ao desenvolver suas habilidades, melhores ferramentas podem ser usadas e mais ações e objetos vão ficando disponíveis gradualmente. Você pode começar a pescar com uma rede de pescar pequena e um puçá para lagostim. Melhores pescadores aprenderão, gradualmente, a usar uma vara com iscas, com iscas artificiais,  uma rede grande e até mesmo um arpão. Também está disponível o aprendizado da pesca bárbara (com as mãos) que exige que se desenvolva as habilidades de combate (força, ataque e defesa) e a agilidade.

Na parte da literatura mundial, os britânicos da Jagex gostam de brincar com a história. A missão "Romeu e Julieta" nos traz a clássica história da rivalidade das famílias e o padre amigo do casal, mas com um Romeu completamente desprovido de inteligência que não conseguirá ficar com Julieta sem sua ajuda. E o final, completamente diferente do original, é hilário. No mundo pago, onde estou atualmente (sim, já fiz todas as missões gratuitas do jogo!), pode-se conhecer Camelot, o rei Arthur, salvar Merlin e tornar-se um cavaleiro templário. 


Para os que não são tão crianças (como eu), é uma oportunidade de rever os clássicos e se sentir parte da história. Para os mais novos, uma oportunidade de conhecê-la. Você mesmo enfrentar desafios para salvar Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda é bastante interessante. Inúmeros seres mitológicos e lendários, como o dragão, o basilisco e a cocatriz, também poderão ser conhecidos. Uma ilha indígena, conhecida como Karamja, também é bastante interessante - você conhecerá a tribo de Tai Bo Wannai.


Rei Arthur, Merlin, Sir Lancelot e Tristão são alguns dos personagens encontrados em Camelot.
Fonte: http://runescape.com
As imagens acima são propriedade da Jagex Ltd.

Em resumo: Runescape agrada por todos estes motivos juntos: é um lugar onde podemos passar muitas horas de jogo sadio, sem pagar ou pagando pouco por mês (se esta for sua opção - tem planos que vão desde R$12,90 no mensal a aproximadamente R$ 160,00 no anual); integra toda a família ou sala de aula para aprendizado e troca de experiências mútuas (eu jogo muitas vezes com meu irmão, 12 anos mais novo, e conversamos quase todos os dias pelo chat do jogo, para resolver desafios e trocar experiências), podemos praticar outros idiomas (ele está disponível em inglês, português, francês e alemão, mas muitas vezes encontramos avatares estrangeiros aqui mesmo, no mundo brasileiro, principalmente do Canadá, EUA e Portugal); estimula a criatividade (muitos desafios fogem do comum e das respostas óbvias), o senso crítico e o raciocínio lógico do jogador.

Mas uma coisa é ainda um terrível ponto negativo no mundo brasileiro: o péssimo português digitado pelos jovens nas conversações. Não, não aquelas abreviações que já se tornaram parte dos usuários de mensagens instantâneas: mas grafias absurdamente erradas mesmo, revelando o pouco conhecimento ortográfico que alguns têm da própria língua. Entre algumas que vi apenas hoje posso listar "voutei", "ofença".  A Jagex possui uma "censura" nos textos de qualquer idioma, mas aqui em português ainda é pouco significativo. Você não pode "falar",  pois se digitar "falo" no texto isso é interpretado como o objeto fálico e não como o verbo. 
Um recurso muito utilizado para palavras proibidas é escrevê-las erradamente, o que só piora a situação gramatical. Até ofensas, que o censor do jogo proíbe em sua maioria, ficam hilárias. Hoje vi um "otaril" no jogo.


Imagem retirada da internet através do Google Search (Images).
Casseta & Planeta pertence à Rede Globo de TV.

Também na periferia o Runescape faz sucesso: vi em uma lan house bem simples, de apenas R$ 1,50 a hora, jovens jogando o Runescape, War of Warcraft e o Gunbound. Neste caso, mais para as matanças de duendes e outros monstros pelos jovens, ao mesmo tempo em que se comunicavam pelo Orkut e MSN, outros "detonadores" da língua portuguesa com sua "linguagem miguxês". Nossos colegas portugueses não cansam de comentar que brasileiro não sabe gramática, isso não só no Runescape, mas em comentários do YouTube e do Orkut, exemplo de outros sites que caíram no gosto popular brasileiro.




Abraço da
Anita

sábado, 5 de dezembro de 2009

Um Lula desconhecido e revelado



Fiquei emocionada ao ler este artigo de César Benjamin, colunista da Folha, que devido à enorme quantidade de cartas de leitores gerou uma continuação.
Não só por falar de um Lula desconhecido (e revelado por ele), mas por todo o contexto histórico vivido pelo Brasil na época da ditadura, com jovens presentes, participantes, que lutavam por seus sonhos e ideais, se dedicavam à leitura e aos estudos, tão diferente da apatia e, mais do que egoísmo, uma verdadeira "centralização em si próprio" que vemos na juventude hoje.
Obrigada César Benjamin, pelos excelentes dois artigos, que publico na íntegra.
Abraço a todos da
Anita

César Benjamin: Os filhos do Brasil
Atualizado em 27 de novembro de 2009 às 18:40 Publicado em 27 de novembro de 2009 às 18:39

Os filhos do Brasil

César Benjamin, Folha de S. Paulo, 27/11/09

ANÁLISE CÉSAR BENJAMIN ESPECIAL PARA A FOLHA

A PRISÃO na Polícia do Exército da Vila Militar, em setembro de 1971, era especialmente ruim: eu ficava nu em uma cela tão pequena que só conseguia me recostar no chão de ladrilhos usando a diagonal. A cela era nua também, sem nada, a menos de um buraco no chão que os militares chamavam de “boi”; a única água disponível era a da descarga do “boi”. Permanecia em pé durante as noites, em inúteis tentativas de espantar o frio. Comia com as mãos. Tinha 17 anos de idade.

Um dia a equipe de plantão abriu a porta de bom humor. Conduziram-me por dois corredores e colocaram-me em uma cela maior onde estavam três criminosos comuns, Caveirinha, Português e Nelson, incentivados ali mesmo a me usar como bem entendessem. Os três, porém, foram gentis e solidários comigo. Ofereceram-me logo um lençol, com o qual me cobri, passando a usá-lo nos dias seguintes como uma toga troncha de senador romano.

Oriundos de São Paulo, Caveirinha e Português disseram-me que “estavam pedidos” pelo delegado Sérgio Fleury, que provavelmente iria matá-los. Nelson, um mulato escuro, passava o tempo cantando Beatles, fingindo que sabia inglês e pedindo nossa opinião sobre suas caprichadas interpretações. Repetia uma ideia, pensando alto: “O Brasil não dá mais. Aqui só tem gente esperta. Quando sair dessa, vou para o Senegal. Vou ser rei do Senegal”.

Voltei para a solitária alguns dias depois. Ainda não sabia que começava então um longo período que me levou ao limite.

Vegetei em silêncio, sem contato humano, vendo só quatro paredes -“sobrevivendo a mim mesmo como um fósforo frio”, para lembrar Fernando Pessoa- durante três anos e meio, em diferentes quartéis, sem saber o que acontecia fora das celas. Até que, num fim de tarde, abriram a porta e colocaram-me em um camburão. Eu estava sendo transferido para fora da Vila Militar. A caçamba do carro era dividida ao meio por uma chapa de ferro, de modo que duas pessoas podiam ser conduzidas sem que conseguissem se ver. A vedação, porém, não era completa. Por uma fresta de alguns centímetros, no canto inferior à minha direita, apareceram dedos que, pelo tato, percebi serem femininos.

Fiquei muito perturbado (preso vive de coisas pequenas). Há anos eu não via, muito menos tocava, uma mulher. Fui desembarcado em um dos presídios do complexo penitenciário de Bangu, para presos comuns, e colocado na galeria F, “de alta periculosia”, como se dizia por lá. Havia 30 a 40 homens, sem superlotação, e três eram travestis, a Monique, a Neguinha e a Eva. Revivi o pesadelo de sofrer uma curra, mas, mais uma vez, nada ocorreu. Era Carnaval, e a direção do presídio, excepcionalmente, permitira a entrada de uma televisão para que os detentos pudessem assistir ao desfile.

Estavam todos ocupados, torcendo por suas escolas. Pude então, nessa noite, ter uma longa conversa com as lideranças do novo lugar: Sapo Lee, Sabichão, Neguinho Dois, Formigão, Ari dos Macacos (ou Ari Navalhada, por causa de uma imensa cicatriz que trazia no rosto) e Chinês. Quando o dia amanheceu éramos quase amigos, o que não impediu que, durante algum tempo, eu fosse submetido à tradicional série de “provas de fogo”, situações armadas para testar a firmeza de cada novato.

Quando fui rebatizado, estava aceito. Passei a ser o Devagar. Aos poucos, aprendi a “língua de congo”, o dialeto que os presos usam entre si para não serem entendidos pelos estranhos ao grupo.

Com a entrada de um novo diretor, mais liberal, consegui reativar as salas de aula do presídio para turmas de primeiro e de segundo grau. Além de dezenas de presos, de todas as galerias, guardas penitenciários e até o chefe de segurança se inscreveram para tentar um diploma do supletivo. Era o que eu faria, também: clandestino desde os 14 anos, preso desde os 17, já estava com 22 e não tinha o segundo grau. Tornei-me o professor de todas as matérias, mas faria as provas junto com eles.

Passei assim a maior parte dos quase dois anos que fiquei em Bangu. Nos intervalos das aulas, traduzia livros para mim mesmo, para aprender línguas, e escrevia petições para advogados dos presos ou cartas de amor que eles enviavam para namoradas reais, supostas ou apenas desejadas, algumas das quais presas no Talavera Bruce, ali ao lado. Quanto mais melosas, melhor.

Como não havia sido levado a julgamento, por causa da menoridade na época da prisão, não cumpria nenhuma pena específica. Por isso era mantido nesse confinamento semiclandestino, segregado dos demais presos políticos. Ignorava quanto tempo ainda permaneceria nessa situação.

Lembro-me com emoção - toda essa trajetória me emociona, a ponto de eu nunca tê-la compartilhado - do dia em que circulou a notícia de que eu seria transferido. Recebi dezenas de catataus, de todas as galerias, trazidos pelos próprios guardas. Catatau, em língua de congo, é uma espécie de bilhete de apresentação em que o signatário afiança a seus conhecidos que o portador é “sujeito-homem” e deve ser ajudado nos outros presídios por onde passar.
Alguns presos propuseram-se a organizar uma rebelião, temendo que a transferência fosse parte de um plano contra a minha vida. A essa altura, já haviam compreendido há muito quem eu era e o que era uma ditadura.

Eu os tranquilizei: na Frei Caneca, para onde iria, estavam os meus antigos companheiros de militância, que reencontraria tantos anos depois. Descumprindo o regulamento, os guardas permitiram que eu entrasse em todas as galerias para me despedir afetuosamente de alunos e amigos. O Devagar ia embora.

São Paulo, 1994. Eu estava na casa que servia para a produção dos programas de televisão da campanha de Lula. Com o Plano Real, Fernando Henrique passara à frente, dificultando e confundindo a nossa campanha.

Nesse contexto, deixei trabalho e família no Rio e me instalei na produtora de TV, dormindo em um sofá, para tentar ajudar. Lá pelas tantas, recebi um presente de grego: um grupo de apoiadores trouxe dos Estados Unidos um renomado marqueteiro, cujo nome esqueci. Lula gravava os programas, mais ou menos, duas vezes por semana, de modo que convivi com o americano durante alguns dias sem que ele houvesse ainda visto o candidato.

Dizia-me da importância do primeiro encontro, em que tentaria formatar a psicologia de Lula, saber o que lhe passava na alma, quem era ele, conhecer suas opiniões sobre o Brasil e o momento da campanha, para então propor uma estratégia. Para mim, nada disso fazia sentido, mas eu não queria tratá-lo mal. O primeiro encontro foi no refeitório, durante um almoço.
Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: “Você esteve preso, não é Cesinha?” “Estive.” “Quanto tempo?” “Alguns anos…”, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: “Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta”.

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o “menino do MEP” nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.

O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.

Dias depois de ter retornado para a solitária, ainda na PE da Vila Militar, alguém empurrou por baixo da porta um exemplar do jornal “O Dia”. A matéria da primeira página, com direito a manchete principal, anunciava que Caveirinha e Português haviam sido localizados no bairro do Rio Comprido por uma equipe do delegado Fleury e mortos depois de intensa perseguição e tiroteio. Consumara-se o assassinato que eles haviam antevisto.

Nelson, que amava os Beatles, não conseguiu ser o rei do Senegal: transferido para o presídio de Água Santa, liderou uma greve de fome contra os espancamentos de presos e perseverou nela até morrer de inanição, cerca de 60 dias depois. Seu pai, guarda penitenciário, servia naquela unidade.

Neguinho Dois também morreu na prisão. Sapo Lee foi transferido para a Ilha Grande; perdi sua pista quando o presídio de lá foi desativado. Chinês foi solto e conseguiu ser contratado por uma empreiteira que o enviaria para trabalhar em uma obra na Arábia, mas a empresa mudou os planos e o mandou para o Alasca. Na última vez que falei com ele, há mais de 20 anos, estava animado com a perspectiva do embarque: “Arábia ou Alasca, Devagar, é tudo as mesmas Alemanhas!” Ele quis ir embora para escapar do destino de seu melhor amigo, o Sabichão, que também havia sido solto, novamente preso e dessa vez assassinado. Não sei o que aconteceu com o Formigão e o Ari Navalhada.

A todos, autênticos filhos do Brasil, tão castigados, presto homenagem, estejam onde estiverem, mortos ou vivos, pela maneira como trataram um jovem branco de classe média, na casa dos 20 anos, que lhes esteve ao alcance das mãos. Eu nunca soube quem é o “menino do MEP”. Suponho que esteja vivo, pois a organização era formada por gente com o meu perfil. Nossa sobrevida, em geral, é bem maior do que a dos pobres e pretos.

O homem que me disse que o atacou é hoje presidente da República. É conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos.

Mesmo assim, não pretendo assistir a “O Filho do Brasil”, que exala o mau cheiro das mistificações. Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder.


CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. É editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.